quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A morte, o tempo e deus.

O quadro era completamente desolador. Esquálida pelo avanço, inexorável, daquela doença insidiosa que concorria, somente, com marcha do tempo e acompanhada de uma dor lancinante, exclusiva dela, não do tempo, esse é insensível por natureza, e muito menos de deus, afinal, esse é pérfido, desleal e traiçoeiro.

À medida que as dores aumentavam, as suas súplicas pela presença da morte eram ouvidas na mesma intensidade.

A morte por se sentir desejada fazia-se de difícil, de rogada, afinal, jamais aceitara qualquer pedido em sua suposta eterna existência, não era vulgar.

E deus assistia tudo com um sorriso de escárnio.

Sim. Com sua atitude típica, inata, qual seja, ostensivamente de desdém, de menosprezo para com tudo e para com outros.

A duração de nossos destinos depende, exclusivamente, dela, a morte, mas com a anuência irrestrita dele, deus. O tempo nessa quadra é solenemente desprezado, ignorado.

Portanto, a variação de seus humores (morte e deus) que determinarão como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem.

Nos seus estados de alegria levam suas vítimas, sorrateiramente, sem sofrimento e instantaneamente, entretanto, quando da fase de péssimo humor, produto de suas iniquidades, martirizam lentamente os corpos escolhidos, dando vazão integral as suas índoles sádicas.

Confesso que pode não ser uma grande coisa, mas já é um alento, saber que a desgraçada (a morte) e o indigente miserável (deus) sofrem de transtornos bipolares, tendo mudanças cíclicas de humor e que esses episódios serão imutáveis, ad eternum.

O diabo é que as consequências de suas doenças, rigorosamente iguais recaem sobre nós provocando um prejuízo irrecuperável, a perda de nossas vidas, invariavelmente, pelas vias de sofrimentos inomináveis.

Entretanto, os desequilíbrios nos seus humores aniquilam eternamente os seus estados de ânimos e seus bem-estares.

Ah! Isso me causa um prazer indescritível, pois, as sua ações malévolas não serão nunca mais completas, serão sempre privadas do orgasmo pleno quando dos seus atos e desejos de necrofilias.

Essa maldita transferência das consequências de suas doenças resvalam nos limites da desconsideração e da inexistência de comportamento ético para conosco.

O meu prazer, relatado em linhas acima, pode ser interpretado como insignificante frente à magnitude das forças da morte e de deus, mas insisto, pode até ser irrelevante, mas, data vênia, a satisfação é minha e, portanto me basta.

No final, o tempo que passou quase despercebido no texto (não motivado pelo autor, e sim, por deus) será assassinado com requintes de crueldades por deus, afinal, para ser eterno, o tempo tem que inexistir.

A morte tornando-se inútil pela inexistência de seres viventes no final dos tempos será descartada, também, por deus.

Sozinho, a princípio, deus vagará pelo universo de forma anônima e sendo desprezado pelos corpos celestiais.

Em tese, deus continuaria todo poderoso, onipotente, onisciente e onipresente, mas pela sua soberba por frações de segundos do tempo cronológico da Terra, caiu na tentação de sentir-se humano, produto defeituoso, nefasto de sua criação, e aí assumiu um corpo acometido do mal de Alzheimer em grau avançado.

Resultado, não sabia mais quem era e não havia ninguém para responder a sua  indagação: “Você sabe com quem está falando”.

Perdido, a demência instalou na sua mente e impossibilitado de retornar a sua identidade de Criador deixou, portanto, de usufruir as ditas prerrogativas da divindade, tornando-se mortal e terminou seus dias sofrendo dores excruciantes.  

O seu fim provocou-me um imenso regalo (vivo prazer), afinal, o TUDO, segundo seus seguidores, transformou-se em NADA. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Incitatus

O imperador romano Calígula, segundo biografia do escritor Suetônio, colocou seu cavalo predileto, Incitatus, no rol dos senadores romanos, e conjecturou fazer dele cônsul (magistrado supremo).
Gozava do privilégio de dormir com mantas púrpuras, cor destinada somente aos trajes reais, e era enfeitado com um colar de pedras preciosas.
Incitatus tinha um numero expressivo de criados pessoais, que somavam 18 (dezoito).
Antes disso, havia nomeado o mesmo cavalo como sacerdote, designando uma guarda pretoriana para tomar conta de seu sono.
A ideia  de Calígula era humilhar o Senado romano mostrando que, se podia nomear um cavalo sacerdote e senador, podia fazer qualquer coisa.
Feito o introito, adrentemos no principal, avaliando o Senado da nossa República.
Constatamos  que o mundo mudou muito, e para pior.
Nós, os eleitores, não passamos de cavalgaduras, que suportamos o peso, através dos impostos e da falta de representatividade, dos 81 senadores. Não confundam com os 18 criados de Incitatus, por favor!
E, por gentileza, não entrem no terreno perigoso da galhofa, ao usarem o termo “senador” no sentido figurado, conforme dicionário:
-“RS Fig. Cavalo muito idoso”.
A atual crise que os senadores, de forma ardilosa, atribuem ao Senado, sabem que lhe são autores e responsáveis. Quando fazem, atribuindo à Instituição, as vilezas essencialmente humanas, praticadas por muito deles, rotulam-nos como estúpidos, sem capacidade de discernimento ou, melhor dizendo, como umas bestas quadradas.
Essencialmente, o que fazem “Suas Excelências”?
Simples: - profanam as tribunas, com discursos aparentemente vazios, entretanto eivados de mensagens subliminares, que permeiam a coação, a chantagem, a extorsão aos demais poderes, com o único e sórdido fito de se locupletarem com os recursos advindos da miséria do povo brasileiro.
Lamento Excelências! O profissionalismo, em qualquer empresa, é  fator preponderante para a manutenção do emprego, e a desídia de suas condutas, caso estivessem no setor privado, não tenham o menor resquício de dúvida, estaria aumentando a estatística dos desempregados desse país.
Não sou nefelibata e sei que essas inquietações não fazem parte das preocupações de Vossas Excelências, pois a maioria esmagadora desse país é de deserdados da sorte, sem esclarecimentos. Não leem por serem analfabetos, e os alfabetizados não o fazem por falta absoluta de recursos, graças às vossas posturas, em grande parte.
As razões para esses descasos não são difíceis de serem deduzidas, pois nós, eleitores, somos cavalos mancos, com a pata quebrada, e todos sabem que animais assim são sacrificados, mortos, por inexistência de cura. E a nossa morte metafórica é o esquecimento das tamanhas indignidades, infâmias, que provocam a reeleição repugnante de Vossas Excelências.
Esse quadrúpede que escreve tem uma certeza pétrea:
- o imperador Calígula não era um louco, como a história o retrata e, sim, um sábio. O Incitatus não custava tanto, aos cofres do Império, quanto à quantia vultosa que é dispendida com cada um dos senadores de nossa República.
Nessa observação acima não vai nenhuma ofensa à Vossas Excelências. Não interpretem, de forma errônea, o parágrafo anterior! Não os comparo ao cavalo Incitatus, nem é de meu feitio ferir as normas de civilidade ou da natureza. Afinal, as animálias somos nós, os eleitores. Não atribuo à Vossas Excelências, tampouco, a condição de cavalariços e, sim, de cavaleiros. Contudo, jamais receberão de mim a qualificação de cavalheiros.
Nota:
– como padeço de masoquismo, assisto à tv Senado. Permitam-me aduzir que, apesar de não ferirem o regulamento nem o decoro parlamentar, os apartes constantes dos celulares, quando V. Excelências ocupam as tribunas, ferem os princípios da civilidade e da boa educação. Desligue-os

terça-feira, 27 de junho de 2017

A morte, o tempo e deus.


 O quadro era completamente desolador. Esquálida pelo avanço, inexorável, daquela doença insidiosa que concorria, somente, com marcha do tempo e acompanhada de uma dor lancinante, exclusiva dela, não do tempo, esse é insensível por natureza, e muito menos de deus, afinal, esse é pérfido, desleal e traiçoeiro.

À medida que as dores aumentavam, as suas súplicas pela presença da morte eram ouvidas na mesma intensidade.

A morte por se sentir desejada fazia-se de difícil, de rogada, afinal, jamais aceitara qualquer pedido em sua suposta eterna existência, não era vulgar.

E deus assistia tudo com um sorriso de escárnio.

Sim. Com sua atitude típica, inata, qual seja, ostensivamente de desdém, de menosprezo para com tudo e para com outros.

A duração de nossos destinos depende, exclusivamente, dela, a morte, mas com a anuência irrestrita dele, deus. O tempo nessa quadra é solenemente desprezado, ignorado.

Portanto, a variação de seus humores (morte e deus) que determinarão como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem.

Nos seus estados de alegria levam suas vítimas, sorrateiramente, sem sofrimento e instantaneamente, entretanto, quando da fase de péssimo humor, produto de suas iniquidades, martirizam lentamente os corpos escolhidos, dando vazão integral as suas índoles sádicas.

Confesso que pode não ser uma grande coisa, mas já é um alento, saber que a desgraçada (a morte) e o indigente miserável (deus) sofrem de transtornos bipolares, tendo mudanças cíclicas de humor e que esses episódios serão imutáveis, ad eternum.

O diabo é que as consequências de suas doenças, rigorosamente iguais recaem sobre nós provocando um prejuízo irrecuperável, a perda de nossas vidas, invariavelmente, pelas vias de sofrimentos inomináveis.

Entretanto, os desequilíbrios nos seus humores aniquilam eternamente os seus estados de ânimos e seus bem-estares.

Ah! Isso me causa um prazer indescritível, pois, as sua ações malévolas não serão nunca mais completas, serão sempre privadas do orgasmo pleno quando dos seus atos e desejos de necrofilias.

Essa maldita transferência das consequências de suas doenças resvalam nos limites da desconsideração e da inexistência de comportamento ético para conosco.

O meu prazer, relatado em linhas acima, pode ser interpretado como insignificante frente à magnitude das forças da morte e de deus, mas insisto, pode até ser irrelevante, mas, data vênia, a satisfação é minha e, portanto me basta.

No final, o tempo que passou quase despercebido no texto (não motivado pelo autor, e sim, por deus) será assassinado com requintes de crueldades por deus, afinal, para ser eterno, o tempo tem que inexistir.

A morte tornando-se inútil pela inexistência de seres viventes no final dos tempos será descartada, também, por deus.

Sozinho, a princípio, deus vagará pelo universo de forma anônima e sendo desprezado pelos corpos celestiais.

Em tese, deus continuaria todo poderoso, onipotente, onisciente e onipresente, mas pela sua soberba por frações de segundos do tempo cronológico da Terra, caiu na tentação de sentir-se humano, produto defeituoso, nefasto de sua criação, e aí assumiu um corpo acometido do mal de Alzheimer em grau avançado.

Resultado, não sabia mais quem era e não havia ninguém para responder a sua  indagação: “Você sabe com quem está falando”.

Perdido, a demência instalou na sua mente e impossibilitado de retornar a sua identidade de Criador deixou, portanto, de usufruir as ditas prerrogativas da divindade, tornando-se mortal e terminou seus dias sofrendo dores excruciantes.  

O seu fim provocou-me um imenso regalo (vivo prazer), afinal, o TUDO, segundo seus seguidores, transformou-se em NADA. 

domingo, 18 de junho de 2017

Anão.

Era anão. O vocábulo “herança” causava um sentimento contraditório que variava da tolerância à revolta. A herança genética advinda de sua árvore genealógica gerou aquele fruto de tamanho diminuto, ele. E olha que seu pai era um alemão de 2,03 m de comprimento e sua mãe, uma baiana arretada com seu 1,83 metros de estatura, e ele, filho único, amargava 1,01 m de altura.

Quanto à herança que provoca desunião e até mortes entre os herdeiros, nada a reclamar, era imensa.

De uma cultura erudita espantosa, avançava na cultura popular com o mesmo desvelo do que na outra.

Era um boêmio inveterado que não fazia distinção de classes e a sua atitude fez renascer um dito dos pobres baianos, de mais de 180 anos, que quase havia se perdido no tempo: “rico sem aviamento” (era o rico que tinha empáfia, ar de superioridade e verdadeira repugnância aos pobres).

Ele, não. Era o “rico com aviamento”. Não admitia o tratamento de doutor em função de sua profissão. Exigia o mesmo tratamento usual entre aqueles iguais na desigualdade.

Médico de renome nacional e internacional participava de todos os Congressos internacionais de sua especialidade, enfim, exercia a profissão sempre no estado da arte.

Por generosidade e sem remuneração dava plantões nos hospitais públicos que padecem no Brasil de uma doença terminal: a inexistência de recursos para tudo (manutenção, compra de equipamentos, de miseras gazes a algodão, etc.) pelo descaso e, principalmente, pela roubalheira dos homens públicos desse país.

Das experiências amargas vivenciadas na rede pública, e que foram imensas, a de maior amargor foi quanto teve que escolher quem deveria sobreviver e quem morreria entre dois seres humanos, em função de falta de sala de operação/equipes e leito no CTI.

Situação vista como normal pela mídia que enfatiza que os médicos são obrigados a brincarem de Deus.

Que país desgraçado é esse onde os deserdados da sorte tem seu destino colocado nas mãos de quem jurou  salvar vidas – vide juramento de Hipócrates; são na realidade hipócritas criminosos, coniventes com o descaso dos homens públicos e assassinos em estado latente.

Aquela decisão (vida/morte), desgraçadamente corriqueira para os colegas de trabalho, foi única e marcou o início de seu fim.

Nas noites insones, pensando na sua decisão, a depressão crônica não alcançou as quatro fases da lua.

Sentia-se um criminoso hediondo, afinal seu crime (assassinato) era doloso, definido nas cóleras das leis, quando o agente tem a intenção de matar.

Nos últimos momentos em que suas faculdades mentais estavam em frangalhos, avaliando a vida como todo, concluiu: “a lucidez é o lado obscuro da insanidade”.

Hoje, no manicômio, diz-se Polifemo, o gigante de um único olho no centro da testa, mas vigilante, da mitologia grega, descrito pelo velho bardo grego, Homero, no nono livro de sua Odisseia.


Leiam a Odisseia de Ulisses e descubram que não passam de NINGUÉM.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O sorriso bastardo de Deus

O sorriso é a expressão facial em que os lábios se distendem para os lados e os cantos da boca se elevam ligeiramente, e quando provocados por humanidade expressa, apenas e tão somente, alegria, amabilidade, aprovação, contentamento, mas quando é escarnecedor, de desdém, de desprezo, de frieza, distinguido pelo opróbrio que revela o alto grau de baixeza, de torpeza, de abjeção, de degradação, esse é de Deus.

O quadro de minha Mara é completamente desolador.

Esquálida no corpo e em ruínas na edificação psicológica, em razão do avanço inexorável dessa doença insidiosa que concorre, somente, com a marcha do tempo e acompanhada de dores lancinantes, exclusivas dela, não do tempo, esse é insensível por natureza, por ser a mão direita de Deus.

À medida que suas dores aumentam as suas súplicas ingênuas pedem na mesma intensidade pela sua presença redentora para minimizar seus sofrimentos excruciantes, Deus. Eu odeio.

Você não passa de um crápula que escuta aqueles pedidos desesperados, e simplesmente mantêm-se indiferente, afinal o sadismo é a essência de seu espírito.  

Não me cabe dúvidas quanto a sua falta de integridade, da sua capacidade de macular, desonrar, a dignidade humana.

Esses são os seus mistérios. Os crédulos, coitados, imaginam sacralizados.

A duração de nossos destinos e dos danos em nossos corpos depende exclusivamente daquele tipo de sorriso e, a variação dele, determinará como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem. E o de minha Mara é de uma tortura inominável, em decorrência de um sorriso frio e macabro.

Você pode ser um enigma a ser decifrado ou um ponto de interrogação, apenas para esses seres humanos portadores de idiotia ou de incapacidade de pensar.

Essa corja ignara representa o seu exército. Um grupo de maltrapilhos e estropiados mentais. Esses seus seguidores são seus dignos representantes e fazem, portanto, jus a você, seu desqualificado.

Ah! Essa constatação é o meu maior prazer, o meu maior deleite.

Essa maldita aflição de minha Mara, consequência de sua moléstia, aliás, todas as enfermidades de maior ou menor potencial de danos foram disseminadas pelo seu livre arbítrio que resvala nos limites de seu ultraje, mas essa sua perversão será o seu martírio na perpetuação de sua imortalidade.

No final dos tempos você terá tempo para verificar a sua sordidez e terá apenas a companhia do vazio galáctico e como um vagabundo desqualificado acabará vagando eternamente com sua mente preenchida pela insânia, mero produto de sua perversidade nas vidas de seus dessemelhantes.

Que satisfação! Que gozo antecipado tenho.

E não tente mudar seu destino. Não adianta caminhar à busca dos cemitérios, na procura de um refúgio para as suas indignidades, pois a paz reinante encontrada existe pela impossibilidade daqueles moradores exprimirem suas opiniões, seus protestos, seus insultos à sua figura repugnante, nauseabunda, nojenta, asquerosa.

Lamento pela condenação de todos os corpos celestes que gravitam no espaço a conviverem coercitivamente com sua presença, contudo, é um preço desprezível comparado com os nossos.



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Uma mente brilhante


Ambos achavam que tinham direito a ter razão.

As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar.

O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo de seres inteligentes; o que, evidentemente, não eram.

Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.

Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.

O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade e com um mau-humor extremado, diz:

‘Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa’.

Colérico, aliás, reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:

‘Canalha! Engula’ e disse de forma peremptória ‘a sua blasfêmia!’

Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:

‘Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas’.

Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.

Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.

Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:

‘Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.

As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.

Que disparate, que despautério.’

O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera fez a seguinte ponderação:

‘No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem: nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.’

Ficaram silentes, reflexivos.

O silêncio foi quebrado por Deus:

‘É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!’

Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.

Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas até aquele momento por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.

Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.


E, tacitamente, cumpriram e cumprem afinal obrigação é obrigação.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sinais gráficos numa sessão de Análise.


Aquela terapia em grupo, efetivamente não poderia trazer bons resultados, na melhor das hipóteses, nenhum.

A linha de ação do Psicólogo era terapia cognitivo-comportamental que, entre diversos aspectos, é balizada, por definição, tanto pelo diagnóstico específico do transtorno mental, como por uma análise do problema pessoal (ou seja, uma descrição das particularidades do paciente).

A exceção de uma cadeira vaga, os pacientes encontravam-se impacientes, tanto pelo atraso do profissional, quanto pela certeza do resultado daquela exposição em público de suas idiossincrasias.

O Psicólogo entra naquela sala espaçosa, com cadeiras em formato de um semicírculo, dirige-se ao seu local e, concomitantemente, saúda coletivamente os presentes, sentindo a falta delas, As Reticências. Quanto ao atraso, nenhuma observação.

O desconforto dos pacientes: Trema, Apóstrofo, Hífen, Cedilha, Aspas, Travessão, Acentos, Ponto e Vírgula, Dois Pontos, Ponto de Interrogação, Asterisco e Ponto de Exclamação, aumenta com a presença do profissional. Encontravam-se tensos e com sudoreses senegalescas, apesar do ar-condicionado marcar uma temperatura significativamente baixa.

Utilizando-se da técnica, o Psicólogo Ponto (.) ameniza aquele estado de tensão no ar, mas não o peso do mesmo, em função do resfriamento, afinal, isso não era de sua alçada de competência.

A palavra é colocada à disposição dos pacientes e após, um breve silêncio, o Apóstrofo (') começa a sua digressão: por definição já sou um sinal gráfico bastante incompleto, indico a supressão de uma vogal e vejo-me como uma vírgula de cabeça para baixo, às vezes. Outras tantas, um acento agudo sem letra embaixo. Isso me causa uma depressão profunda, uma tristeza infinda pela falta completa de identidade.

De forma espontânea, o Hífen (-), até para sua surpresa, com um poder de síntese abre a sua alma: sou de um refinamento extremamente complexo e com regras extensas e confusas, onde a quase totalidade dos autores e ressalto, não são os semi-analfabetos, são extremamente contraditórios ao disporem de minha função em seus textos. Tenho um complexo proporcional à complexidade de meu uso.
   
Numa gagueira, produto dos seus problemas psicológicos, a Cedilha (ç) expõe seus conflitos de maneira objetiva e, logicamente, desesperadamente lenta: sofro de baixa-estima, afinal ao pronunciar o meu nome (ç), ao invés, do som de “c” o fazem com o de “ss”; padeço (escutem o som), também, de um desvio de afeto das vogais “e” e “i”, pois, sentem-se preteridas por mim, pois na visão delas, permito uma convivência harmoniosa apenas com as outras vogais.

Com certa timidez As Aspas (“ ”) ponderam que se sentem como vírgulas dobradas, invertidas e isso causa uma discriminação hedionda entre os seus semelhantes, os sinais gráficos, por colocarem em dúvida as suas opções sexuais. Além disso, enfatizam que o seu uso pelas pessoas têm duas finalidades: destacar um conteúdo reproduzido literalmente da boca de outro indivíduo que não o autor do texto ou denotar que a palavra que está se usando, no contexto, não apresenta significado literal.

Lágrimas duplas escorriam de cada um dos olhos das Aspas que encharcavam as suas tristezas profundas, pelas marginalizações impostas.

O silêncio imperou por uns trinta segundos e o Travessão (-) foi claro e conciso em seu desabafo: sou um fragmento ínfimo de linha que separa as falas dos interlocutores e, algumas vezes, sou utilizado para suprimir o parêntese. Sou um medíocre e um assassino eventual.

Nessa hora, o ambiente que estava tenso e com os pacientes fragilizados foi conturbado de vez com as intervenções dos Acentos (´ ^ `) que elevavam suas vozes, procurando dar ênfase às suas individualidades.
O Psicólogo teve que intervir diversas vezes, organizando as falas de cada um dos trigêmeos não univitelinos. Os problemas são tantos entre eles que os caracteres hereditários parecem não vir da mesma gêneses.

Não se entendem, primam por serem problemáticos e sofrem de um complexo de superioridade triplo, isto é, cada um se acha mais importante do que os outros. O diagnóstico é elementar: ególatras.

Com os Acentos trêmulos de raiva, apesar do temor, o Trema (¨) foi enfático e definitivo: sou um mero coadjuvante, a minha existência é relativizada, pois sirvo para que o “u” dos grupos gue, gui, que, qui  seja proferido com som átono.

Houve uma pausa proposta pelo Psicólogo. No retorno, o Ponto-e-Vírgula (;) fez uso da palavra: sofro de transtorno bipolar, pois vario entre a Vírgula e o Ponto, e não sou nenhum dos dois. Sou de uma imprecisão ímpar, represento uma separação mais ampla que a vírgula, e, também, tenho característica do ponto, mas não a ponto de encerrar um período.

Aproveitando a deixa, o Parêntese () não titubeou em afirmar que era um sinal gráfico sem paz interior. Os escribas utilizam-me de forma promíscua. Afinal, sirvo para intercalar, num texto, qualquer indicação ou informação acessória. Prestem atenção: A-C-E-S-S-Ó-R-I-A, isto é, de caráter secundário.  Prezados, não nego: sofro de um complexo de perseguição e de nulidade, enquanto partícipe da linguagem.

Os Dois Pontos (:) dirigem as palavras de forma uníssona para o Parêntese e, em claro e bom som, com dicções perfeitas, dizem: não se abata, existem coisas piores, veja a nossa situação. Servimos para marcar um suspensão (sensível), isso é coisa de ..... (bem, deixa pra lá), da voz na melodia de uma frase não concluída. 

Usam-nos antes de uma citação, de uma enumeração e de uma explicação. Temos vários problemas psicológicos e não negamos, mas, somos machos.

Aquelas ponderações dos Dois Pontos não soaram bem para o Ponto de Interrogação (?) que com uma voz de falsete, foi logo dizendo: indico uma pausa com entoação ascendente. Usam-me nas interrogações diretas; combinam-me com o Ponto de Exclamação quando a pergunta também expressa surpresa e quando existe muita dúvida na pergunta. Agora quero deixar bem claro: sou um homossexual muito bem resolvido.

O Ponto de Exclamação (!) ao ouvir o comentário do paciente que o antecedeu, com os lábios trêmulos de indignação, afirmou: não tenho preconceito nenhum com as escolhas particulares. Agora, não me coloquem numa situação que repudio, enfaticamente.  As forças dos escritores são poderosas e não tenho condições objetivas para vencê-los, contudo, sempre protesto à exaustão, quando me utilizam, promiscuamente, com o Ponto de Interrogação.  Quanto ao resto, são várias as possibilidades de minha utilização nas frases que exprimem espanto, surpresa, alegria, entusiasmo, cólera, dor, súplica, etc.

A animosidade estava tomando um vulto não desejado e o Psicólogo resolveu suspender a sessão, na mesma hora em que o Asterisco recebeu uma ligação das Reticências.

Não dando tempo para os pacientes se levantarem, o Asterisco (*) comunicou que As Reticências estavam aguardando  todos os colegas de infortúnio no bar, embaixo do Consultório.

O Asterisco acabou de forma transversa e subliminar, denotando a sua razão de existir, que é chamar a atenção do leitor para alguma nota ao final da página ou do capítulo.

Quando desceram já existia uma mesa separada pelas Reticências e com os devidos pedidos de tira-gostos e chopes, em curso.

Acomodados e sorvendo goles daquela bebida estupidamente gelada, As Reticências fugindo de suas naturezas reticentes foram diretas ao assunto: procuramos o Orientador do Ponto (.) que nos clinica e obtivemos informações preocupantes.

O Orientador, como sabem, tem a função de fazer análise nos profissionais de Psicologia. Ele nos afirmou que havia solicitado ao Órgão de Classe a suspensão provisória do registro e, conseqüentemente, das atividades do Psicólogo Ponto (.), em razão da crise que ele vem passando. Sem ferir a ética profissional, aludiu sobre o agravamento dos sucessivos distúrbios psicológicos do Psicólogo.

O Psicólogo Ponto (.) está sofrendo de uma neurose grave. Neurose, essa, decorrente das suas tentativas ineficazes de lidar com o seu ego, pois, não consegue separar quando é “ponto simples”, “ponto parágrafo” ou “ponto final”- e esses conflitos e traumas do seu inconsciente exigem um tratamento longo, inclusive, psicanalítico, com prescrições de remédios com tarjas pretas, de modo a restaurar sua sanidade plena, deixando-o, portanto, incapacitado para o exercício da profissão.
O silêncio que sucedeu aquelas palavras poderia ser denominado de fúnebre.

De repente, escutam aquela expressão gaguejante da Cedilha: “Como isso é possível?!

O Ponto de Exclamação ao ouvir aquela indagação que o atrelava ao Ponto de Interrogação partiu de porradas para cima da gaga.

Termino por aqui, pois, a confusão não acabou bem.

Padeço de muitos males, inclusive, das incorreções nas colocações das vírgulas, mas, sei quando devo colocar um “ponto final” nas coisas.